Passamos a vida a tentar fazer o nosso melhor em tudo – trabalho, família, escola, desporto, etc. Infelizmente dar o nosso melhor não implica melhorar. Podemos dar tudo, mas não é por isso que vamos ser melhores profissionais, esposos, amigos, colegas, desportistas ou mesmo pais.

Infelizmente, este tipo de estagnação é muito mais comum do que a esmagadora maioria das pessoas pensa. Esta é a estagnação que leva incontáveis empresas a encostarem inúmeras pessoas a partir de determinada idade. O esforço não tem qualquer relação com o desenvolvimento e com resultados.

As pessoas e as equipas mais eficientes fazem algo que todos podemos imitar. Passam a vida a alternar intencionalmente entre duas zonas: zona da aprendizagem e zona do desempenho. A zona de aprendizagem acontece quando o objetivo é melhorar. Nesta zona realizamos atividades de aperfeiçoamento, onde nos concentramos em material e atividades que ainda não dominamos. Nesta zona acaba por ser natural cometermos erros e aprendermos com eles. É muito diferente do que fazemos quando estamos na zona do desempenho, que acontece quando o nosso objetivo é executar o melhor que pudermos alguma atividade ou tarefa. Aqui concentramo-nos no que já dominamos e tentamos minimizar os erros.

Ambas as zonas deveriam ser parte da vida de todos nós. Estar nestas zonas com a consciência de que queremos realmente estar em cada uma delas, com objetivos e expetativas definidas ajuda-nos a executar e a evoluir mais e melhor. A zona de desempenho maximiza a nossa ação imediata enquanto que a zona de aprendizagem, potencia o nosso crescimento e o desempenho futuro.

A razão de muitos de nós não melhorarmos, apesar do trabalho árduo, está relacionada com a nossa tendência de gastar quase todo o tempo na zona de desempenho. Este facto inibe o crescimento e, ironicamente, no longo prazo, também o desempenho.

As nossas ações na zona de aprendizagem deveriam estar próximas do conceito de Prática Deliberada, desenvolvido pelo Dr. Anders Ericsson que envolve dividir habilidades em competências, definindo exatamente o que queremos melhorar. Concentramo-nos em desafios de alto nível, fora da zona de conforto, usando a experiência com repetição e ajustes, de preferência com um orientador capacitado nas áreas específicas que pretendemos melhorar.

É esta prática na zona de aprendizagem que leva ao aperfeiçoamento substancial e não só à execução da tarefa.

Investigação recente mostrou que depois dos primeiros anos na mesma profissão o desempenho estagna. Isto é verdade para qualquer área profissional e acontece porque quando pensamos que já somos bons o suficiente, que somos capazes e deixamos de visitar zona de aprendizagem. Dedicamos todo o nosso tempo a realizar o nosso trabalho, a desempenhar, o que é uma péssima forma de melhorar. No entanto, aqueles que revisitam continuamente a zona de aprendizagem, continuam sempre a melhorar. Os melhores vendedores, realizam atividades de melhoria pelo menos uma vez por semana. Leem para aumentar o seu conhecimentos, consultam colegas e especialistas, solicitam feedback e refletem. Os melhores jogadores de xadrez passam muito tempo, não a jogar xadrez –  a sua zona de desempenho -, a tentar prever e a analisar as jogadas dos grandes mestres.

Provavelmente já passou muitas horas a teclar no computador e não ficou mais rápido. No entanto, se investir 10 a 20 minutos por dia, concentrado em teclar 20% mais rápido que a sua velocidade segura, tornar-se-á bastante mais rápido, sobretudo se identificar os seus erros e insistir na correção. Isto é prática consciente.

Com isto não quero dizer que a zona de desempenho não tem valor. Tem. E muito. Quando estive em perigo de vida devido a um acidente de mota, felizmente o cirurgião tinha muita experiência e focou-se no que já sabia fazer. Seria terrível se naquele momento tivesse o mindset de aprender com os erros. Estar na zona de desempenho permite que façamos o melhor que podemos. Isso também é motivador e dá informações para identificar qual o nosso próximo ponto de melhoria quando voltarmos à zona de aprendizagem.

O caminho para o alto desempenho é simples e consiste em alternar entre a zona de aprendizagem e a zona de desempenho.

Quando entrego um discurso ou faço uma apresentação em público estou claramente na minha zona de desempenho, mas, no fim do dia quando volto para casa, regresso à zona de aprendizagem. Assisto ao vídeo da minha entrega e  identifico o máximo de oportunidades de melhoria possíveis. Nos dias seguintes pratico deliberadamente esses pontos. Na apresentação seguinte noto sempre melhorias. É uma espiral de melhoria continua. No entanto, é necessário saber quando devemos aprender e quando devemos desempenhar e, se quisermos fazer ambos, devemos ter consciência que, quanto mais tempo passarmos na zona de aprendizagem, mais vamos melhorar no futuro. Então, como ficar mais tempo na zona de aprendizagem? Em primeiro lugar é fundamental acreditarmos que podemos melhorar. Em segundo lugar, devemos querer melhorar uma habilidade específica. Convém que tenha um propósito relevante para nós, pois são necessários tempo e esforço. Em terceiro lugar, devemos ter uma ideia de como melhorar, ou seja do que podemos fazer para melhorar. A ideia é não fazer como eu enquanto adolescente que tocava continuamente as mesmas músicas na guitarra. Em quarto lugar, devemos colocar-nos em situações de baixo risco, porque se devemos esperar erros, então o facto de os cometermos não poderá ser uma catástrofe. Quem faz acrobacias no arame não pratica novos truques sem uma rede de segurança, assim como um atleta não tenta novos movimentos durante a competição. Passamos tanto tempo na zona de desempenho porque os nossos ambientes muitas vezes são, desnecessariamente de alto risco. Os erros pagam-se caro. Criamos riscos uns para os outros. Veja-se o exemplo das escolas. Todos os dias os estudantes – da escola primária até à faculdade-, sabem que se cometerem erros vão ser desvalorizados e ter más notas e até chumbar. Não é de admirar, portanto, que estejam sempre stressados e sem querer arriscar para aprender. O que eles aprendem é que os erros são indesejados e, sem querer, quando crescem e se tornam pais ou professores, apenas querem ouvir respostas corretas rejeitando os erros em vez de os aceitarem e examinarem e de ajudarem as crianças e os alunos a aprenderem com eles. Assim em vez de prepararmos e encorajarmos alunos a raciocinar, a explorar e a refletir para aprenderem, estamos a pedir apenas inputs limitados que estejam corretos de acordo com o paradigma atual.

Os trabalhos de casa em vez de terem uma classificação e contarem para a nota final, deveriam ser utilizados para praticar, errar, avaliar, melhorar e aprender. Atualmente os professores estão apenas a enviar a mensagem de que a escola é uma zona de desempenho. Mas não deveria ser de aprendizagem?

O mesmo ocorre nos nosso empregos. Em muitas empresas existem culturas muito evoluídas que facilitam a execução. No entanto, isso leva os colaboradores a usar apenas o que sabem e a não tentar coisas novas. Desta forma, as empresas sofrem para se aperfeiçoar, acabam por não inovar..

Podem ser criadas estruturalmente mais condições para o desenvolvimento, começando, através do diálogo com uma definição clara do que e quando queremos melhorar e de quando queremos executar e minimizar erros.

E se nos encontrarmos em cenários de alto risco crónicos e sentirmos que ainda não podemos iniciar esse tipo de diálogo? Primeiro, podemos criar ilhas de baixo risco num mar de alto risco. Ou sejam, espaços ou momentos em que os erros têm poucas consequências. Podemos, por exemplo, encontrar um mentor ou um colega de confiança com quem podemos trocar ideias, ter conversas mais vulneráveis ou mesmo treinar, praticar e ensaiar. Podemos pedir feedback sobre a evolução de um determinado projeto. Ou podemos planear um tempo para ler, ver vídeos ou fazer cursos online. Estes são alguns exemplos. Em segundo lugar, podemos executar e desempenhar de acordo com as expectativas e, depois, refletir sobre a performance e decidir sobre o que melhorar para a próxima vez, como normalmente faço com as minhas performances em Public Speaking. Podemos também observar e imitar os especialistas. A observação, a análise, a reflexão, a integração e o ajuste são zonas de aprendizagem. Por fim, podemos provocar e baixar os riscos ao partilhar no que pretendemos melhorar, ao perguntar o que não sabemos, ao solicitar feedback e ao partilhar os nossos erros e o que aprendemos com outras pessoas. Desta forma, outros também aprenderão com a nossa experiência.

A verdadeira confiança está relacionada com a modelação e estruturação da aprendizagem contínua.

E se em vez de passarmos as nossas vidas a fazer e a executar, investíssemos mais tempo a explorar, a perguntar, a ouvir, a experimentar, a refletir, a tentar, a analisar, a interiorizar e a integrar? E se cada um de nós tivesse sempre continuamente algo a ser melhorado? Provavelmente os nossos esforços se tornassem mais consequentes e nos aperfeiçoássemos continuamente até a um nível que nunca tivéssemos imaginado. Vale a pena pensar nisto.

Ganhe no seu mundo. Treine no nosso.
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